13/01/2013

Sentir, Sem Ti


Para todos aqueles que conhecem a dor que é ter quem se ama e depois precisar deixá-lo ir. 
Pra ouvir: Sailor man - Ewert and the two dragons

Então o Domingo vinha devagar no seu passo trôpego do tempo e do cansaço. Primeiro passava seus raios claros e calmos pela terra, assim como se fossem milhares de dedos de luz, já anunciando que chegara a todos aqueles que usavam isso como desculpa para começar mais um dia. Flores, árvores, pássaros e até algumas pessoas, embora tão raras, envoltos pela áurea que dele provinha. Um novo dia, uma nova chance. Incrível como encontramos esperança em qualquer lugar.

Não era querido por todos, de fato, mas pelo menos era uma das poucas certezas da vida e em meio ao caos dessa Era, era bom ter pelo menos alguma certeza. O outro dia viria, sempre vem. Mesmo que não igualmente pra todos. Era bem lento e não tão quente, mas prelúdio de um dia bom para todo mundo que gostava do sol, da preguiça, do tédio, do ócio...

Exceto, claro, pra figura que encarava as luzes que vinham as brechas da janela.

Para ele, o domingo era sempre o pior. Domingo curvou-se com cuidado por uma das brechas e observou. Ali, um homem tão parado como os móveis do quarto, embora claramente acordado devido os olhos fitadores de luzes, tentava fingir ser um dos móveis, observava corajoso a luz, encarava e fraquejava um pouco. Fechava os olhos e via diversas bolhas coloridas em meia a escuridão meio azulada.

O homem deitado sabia que logo ia começar. Assim que a luz terminasse de invadir completamente o quarto e o ar condicionado parasse por um instante de gelar, ia começar.

Então tudo pareceu mover-se no apartamento. Ate os móveis pareciam mais atentos. Primeiro o barulho da janela sendo aberta e um pulo na cama, seguido de uma chuva de beijos, no ombro, na nuca, no pescoço e na bochecha, dizendo que o domingo era bonito demais pra ficar na cama. Domingo sentiu-se lisonjeado, gostou dela. Todos gostavam. Ela tinha aqueles olhos gentis de pupilas indecifráveis e as maçãs do rosto protuberantes quando sorria.

O homem deitado na cama se contorcia devido à luz súbita em seus olhos. Logo podia ouvir o barulho da chaleira. Ela preferia chá, mas também fazia café para ele. O barulho crocante dos pães quentinhos sendo untados com margarina veio em seguida, porque ela sempre preferiu margarina a manteiga. O cheiro do café quente, do chá quente e dos pães invadiu o quarto.

- Você ainda não levantou, preguiçoso? - ele ouviu como uma voz macia e meio infantil que se perdia, como uma voz que se perde no interior de uma caverna profunda. Logo podia ouvir o barulho do chuveiro. Os banhos dela eram rápidos ("pra evitar o desperdício!", dizia) e logo a porta do banheiro se abria com aquele cheirinho suave de baunilha, o sabonete preferido dela, do cheiro de frutas que vinha do cabelo lavado. Ela saia de lá sorrindo, com os cabelos muito pretos e longos ainda despenteados e com o corpo envolto pela toalha.

Ali, parada ao lado da cama começava a penteá-los, enquanto gotas d'agua gelada pintavam por todo lado, inclusive nele, e ela desembaraçava e reclamava dos nós, diziam que iam cortar logo aquela merda que dava tanto trabalho e ele só conseguia observar o quão ela ficava linda, ali apenas de toalha, reclamando embora fosse rir assim que terminasse e esquecer completamente do que reclamava.

Depois ela viria deitar-se ao seu lado. Sua pele era gelada. Aninhava-se qual criança ali onde o peito se torna braça e ele a abraçaria meio sem jeito com o braço onde ela apoiava a cabeça e com todo o restante do corpo. Ele podia vê-la de perto dali. A pele bonita, meio morena, deixava os olhos escuros e pequenos saltaram. Ela piscava mais que o habitual pra alguém com cílios não tão fartos, mas bonitos mesmo assim.

Falava qualquer coisa então. Sobre o cabelo dele está engraçado, meio ondulado de um lado e meio liso do outro. De algo que havia acontecido antes. Sugeria algum lugar pra irem. Fazia os planos do dia inteiro, que provavelmente seriam quebrados, mas que ela precisava fazer, pra enganar o perfeccionismo que tentava controlar.

Sugeria por fim aquilo que eles realmente fariam. Levantava-se (embora não antes de lutar para livrar-se do abraço dele) e pegava alguns livros na estante. Jogava-os na cama. Voltava com o chá, café e os pães. Sentava-se com as pernas cruzadas em frente a ele, que a essa altura já havia se sentado. A fumaça do chá lhe embaçava completamente os óculos recém-colocados. Aqueles óculos que a faziam sentir uma velha, porque eram usados somente pra leitura, vista cansada. Coisa de gente velha. 

Então eles terminavam o café da manhã, colocavam as xícaras no criado mudo e escolhiam um dos livros. Então ela enfiava-se entre o livro e as pernas dele, de modo que ficavam num meio abraço para lerem o mesmo livro juntos.

O homem deitado na cama observou tudo aquilo sentado e encolhido num canto da cama. O local onde ele estava não era banhado pela luz dourada do Domingo, que também continuou observando. A sua versão dourada de luz podia tocá-la. Ele não, mas tentou mesmo assim. A mão preta e braço invadiu a luz e aos poucos também se iluminou. Ele só precisava de um toque, qualquer toque, na pele macia dela e estaria satisfeito. Mas, assim que seu braço alcançou altura suficiente dela tudo dissolveu-se no ar.

O quarto voltou a escuridão. Não havia mais cheiros, nem mesmo o do perfume dela que sempre estava no ar. A cama e os lençóis estavam gelados. Nenhum barulho se ouvia por um minuto que parecia ter parado no tempo. Um segundo eterno do mais puro vazio. O vazio pressionava até mesmo a alma do homem.

Então, o homem deitado na cama foi encolhendo e encolhendo até conseguir abraçar os próprios joelhos. Naquele momento não era mais homem, mas uma simples criança, encolhida com medo de abrir novamente os olhos. Num súbito, começou a socar os travesseiros, ainda escondendo o rosto num deles. Chorou violentamente. Soluçou e balbuciou qualquer coisa ininteligível. A dor o dilacerava.

Domingo, que observou tudo aquilo, quis passar um dos seus dedos de luz e salvar o rapaz. Tentou pelas brechas da janela, mas não conseguiu. Era preciso mais espaço para tirá-lo daquela escuridão, competência que estava além dele.

Nem mesmo esse novo dia poderia salvar alguém cuja dor vem de fora pra dentro, dilacerando até que só reste o vazio. Domingo levantou-se e foi embora. Não era ainda o dia em que o salvaria. Recordou, então, que só o Tempo entendia suas próprias piadas infames. 

28/09/2012

Pequeno Inventário da Vida Contemporanea



Love is a Laserquest - Arctic Monkeys

Embora lentamente - o que não era o usual - galgava dois degraus a cada nova passada naquela escada que após um dia de trabalho sempre parecia sofrer mitose em seus degraus. Parou subitamente sentindo um novo peso, bem além daquele que geralmente tinha nesse momento de volta para casa, olhou por um minuto a espiral que eles, os degraus, formavam logo abaixo e sentiu náuseas. Não quis arriscar novamente. Voltou ao galgar. 

Um calor estranho percorreu todo o corpo, uma espécie de agonia que ela converteu em força, usando-a para terminar os degraus. Chegou à porta do seu pequeno apartamento que ficava no canto mais escondido de todos, atrás de uma coluna, numa parte que recuava a parede atrás da coluna. Ninguém imagina que ali vivia alguém. Mas (sobre)vivia. 

Colocou a mão num dos bolsos da bolsa grande que levava e retirou as chaves. 
Colocou. Girou. Entrou. 
Respirou fundo. 

O coração parecia a salvo agora, ali escondida em seu próprio pedaço do mundo, embora não totalmente seu, já que o aluguel precisava ser pago todo mês. Pensou novamente no aluguel e contorceu-se.  

No segundo após fechar a porta, tratou de tirar os saltos, assim meio que como um espartano cansado que livra-se da armadura no fim da guerra. Os saltos eram a sua armadura, a bolsa sua espada, aquela era sua guerra e ela a havia perdido. 

Colocou um a um os pés descalços no chão. Onde os sapatos apertavam haviam deixado os pés meio enrugados, meio mortos. Ela observou sem jeito seus pés feios. Sentiu náuseas novamente. Resolveu não arriscar olhar pra baixo nenhuma outra vez. 

Depois livrou-se da blusa, do jeans e por fim dos sutiãs. A melhor parte era livrar-se dos sutiãs. Deixar-se livre deles era como deixar-se livre do mundo lá fora onde se precisa usá-los não-sabe-se-ao-certo-porque. Talvez pra esconder o desejo de quando eles desejam ser tocado pela mão grossa do advogado mais velho que entrega os documentos todos os dias para o seu chefe... 

Ah, o seu chefe... 

Aquele porco burocrata que sequer sabia dizer bom dia. Ex-chefe, ela fez questão de assinalar em pensamento. Um meio riso veio-lhe até a garganta, mas não passou dali. Um pequena gota de suor escorreu-lhe por entre os seios pequenos.  Ela parou de prender o cabelo no auto da cabeça quando recordou. Segurou suas mãos ali em cima. 

Ex-chefe. 
Ex-emprego. 
Parecia tudo muito irreal. 

Justo ela que ficou conhecida como a mais dedicada de todas as secretárias daquele prédio enorme onde funcionava aquela repartição pública. Justo ela, a mais educada e sorrindente das secretárias. Aquela que jamais soltou uma piada indevida, usou decotes ou bebeu e tirou a blusa nas festas. Justo ela, que se encaixava tão bem, mas tão bem que todos sabiam que escondia um terrível desgosto por trabalhar ali.

Soltou os cabelos e caminhou lentamente até a cozinha. Conseguiu achar uma garrafa de vinho barato que havia comprado não-lembrava-mais-pra-que. Talvez pra uma ocasião especial. Não era o caso desta, mas ela o abriu e serviu-se uma taça mesmo assim. 

Recordou que mais de uma vez pensou em pedir demissão e (bem) mais de uma vez lembrou que precisava do dinheiro, que embora fosse pouco, era necessário. Necessário para pagar o pequeno luxo de comer sushi toda semana após o cinema. Necessário para pagar o pequeno luxo de comprar uma nova saia de couro sintético, o novo corte de cabelo ou sapatos novos que apertariam seus pés até os fazer parecerem mais feios que o usual. Recordou, por fim, que se queria pequenos luxos, precisava fazer grandes sacrifícios. Era a lógica da vida pós-moderna.

Terminou o que restava de conteúdo da primeira taça num só gole. Pensou nos pequenos luxos por mais três taças completas e de tanto pensar em seus pequenos luxos, acabou imaginando que poderia ficar sem eles por um tempo, se conseguisse achar outro emprego, num outro lugar onde os homens não olhassem descaradamente sua bunda quando ela levantava pra tomar água ou tirar xerox. Um local onde as pessoas fossem mais sutis, mais educadas e dessem bom dia, mesmo que o dia estivesse uma merda total. 

Ela só não esperava ser convidada gentilmente a procurar esse novo lugar tão cedo.

A agonia voltou a apertar seu coração e aos poucos foi lhe tomando as forças. Primeiro das pernas, depois dos braços, depois dos olhos. Concentrou-se ali nos olhos que não muito depois derreteram num choro seco de apenas três lágrimas. O sofá parecia engoli-la, a taça poderia cair a qualquer momento.

Logo ela abandonou a taça e começou a beber no gargalo mesmo.

Ela pensou como lidaria com aquela sensação de fracasso que insistia em lhe atormentar desde que o chefe sorrindo amarelo lhe explicou que ela era a melhor assistente que ele já teve, mas que os custos da repartição seriam cortados e que ela fazia parte do seleto grupo escolhido para manter o órgão em funcionamento, deixando seus salários para isso. 

Pensou que estava fazendo exatamente como quando algum cara por quem havia se apaixonado a deixava. Ela tomaria um porre grande de vinho, dançava e cantava trancada sozinha no seu quarto, caia na cama, choraria por algumas horas e depois dormiria. No outro dia a ressaca era tão grande que acabava abafando a dor que era ter sido largada. 

Só que dessa vez o caso não era de amor.
Era um desses que os tantos romances que lera não ensinavam a lidar.

Sentindo-se tomada por toda aquela agonia, por toda aquela inutilidade, por toda a pressão de estar desolada, de não ter ninguém pra quem ligar pra chorar no ombro, já que todos os poucos amigos que tinha haviam se mudado em busca de oportunidades melhores... E de repente viu no horizonte mais de um milhão de possibilidades: um novo emprego, uma nova cidade, novos amigos...

Tive medo de todas elas. Arrastou-se até seu quarto, deixando a garrafa na mesinha de centro. Deixou cair entre as cobertas da pequena cama. As possibilidades continuaram a povoar seus pensamentos. Ela encolheu as pernas e as abraçou. As sombras da noite tomaram de conta do quarto aos pouquinhos, caminhando até engoli-lo por completo com sua escuridão. Ela também deixou-se engolir por ela. 

Pelo mundo. 
Pelo fracasso.
Pelo medo de algo melhor. 

Pela primeira na vida dormiu sem saber exatamente como seria deixar o despertador tocar, porque não havia compromissos, não havia agenda, não avisa nada. 

...
Nota da Autora: Caramba, quanto tempo que eu não posto aqui! Peço mil e um perdões por isso meus queridos leitores, mas é que eu precisei tirar esse tempinho pra descansar um pouco a mente dos ultimos dois anos de produção constante. Voltei meio enferrujada mas espero voltar logo ao ritmo de antes. Desculpem mais uma vez pela demora e por favor não esqueçam de comentar, é muito importante pra mim. Beijão! 


23/06/2012

O Fim do Mundo


Pra ouvir enquanto lê: Down – Jason Walker


É que tudo hoje em dia parece imenso numa redoma de vidro inquebrável feita de tédio e solidão. A multidão é formada por pessoas que querem abraços verdadeiros, mas que repudiam o toque de desconhecidos – às vezes até dos conhecidos; que preferem fingir que estão muito ocupados com algo no celular que cumprimentar o semi-conhecido que poderia ser seu melhor amigo, mas que não tem abertura nenhuma pra isso (e que também não faz questão). Tudo é orgulho, é individualismo, é inabalável tristeza, é densa negação que se precisa do outro. Todo mundo seguindo seu passo apressado como quem corre de alguma coisa que o persegue, quando na verdade correm de si mesmos.

Bem que as pessoas merecem mesmo o fim do mundo.
Mas, naquele momento, só uma pessoa sabia que o mundo ia acabar hoje.

Lá no último andar do prédio onde morava estava a mais fiel observadora da Rua Principal, após cumprir seu ritual diário. Primeiro, subia os dez lances de escada sem usar o elevador numa tentativa de ajudar o meio ambiente, sabe? Uma vez viu um documentário que era preciso preservar o meu meio ambiente gastando menos energia, especialmente com luzes, elevadores e escadas rolantes.

Hoje ela nem sabia por que estava subindo as escadas.
O mundo ia acabar mesmo.

02/06/2012

O Cadarço



Longos e finos traços de luz dos primeiros raios da manhã cortavam o chão, vindos das brechas da velha janela. Aquela iluminação fraca revelava suavemente os contornos de um quarto tão pequeno que apenas uma volta nos próprios calcanhares bastava para observá-lo por completo.

Era um quadrado perfeito, onde se via uma cômoda de madeira gasta encostada na parede oposta à janela, com algumas roupas pendendo pelas gavetas entreabertas. Havia também um tapete surrado num tom laranja-desbotado onde um cachorro vira-lata dormia a sono solto, rangendo os dentes algumas vezes, como se sonhasse com a perseguição de um gato ou um osso saboroso. Algumas latas de cerveja e caixas de pizza espalhavam-se pelo chão. Um ventilador de teto rangia preguiçoso e lançava um vento suave sobre a cama abaixo. As paredes tinham um branco desbotado pelo tempo e algumas infiltrações.

Entre a bagunça dos lençóis, um homem magro de cerca de quarenta anos curvava-se com as mãos no rosto, os cotovelos nos joelhos, sentado numa ponta da cama. Parecia rezar, mas não poderia porque nunca conseguiu juntar em si crença suficiente para uma religião.

Permaneceu naquela posição até sentir os raios fracos esquentando sua perna. Então, como que um despertador acionado, levantou-se, foi até o banheiro pequeno que ficava numa porta próxima a cômoda, retirou o calção fino que usava e adentrou ao chuveiro.

No geral, ele fechava os olhos e só os abria quando a água parava de percorrer seu corpo, que era pra não precisar encarar o espelho que ficava em frente. Naquele dia, sem saber ao certo de onde certa curiosidade surgira, ele os abriu. A água corrente revelou uma imagem distorcida no chuveiro.

Ele encarou aquela imagem sem a reconhecer.

Saiu da água e fui bem próximo ao espelho. Ainda não reconhecia o que via. Puxou algumas rugas com seus dedos longos e finos. Observou como seus olhos, outrora num tom amendoado de castanho brilhante, agora parecia pálidos, como ele mesmo. O cabelo crespo começava a desaparecer em alguns pontos da cabeça. Puxou todo o rosto com as mãos. Não adiantou muito, porque as rugas continuavam ali, entre suas palmas.

De repente, quis socar o espelho, o apartamento, o tempo. Mas, como o conformado que era, simplesmente pegou uma toalha e enxugou-se. Vestiu a camisa branca de botões do uniforme de porteiro, onde um pequeno bordado dizia “José Silva”. Ele, como numa piada infame sobre a própria desgraça, chamava a si mesmo de Zé Ninguém.

Procurou os sapatos em baixo da cama. Só encontrou um. O outro estava ao lado do cachorro que dormia no tapete. Quando o pegou, já seco, mas duro devido à outrora de baba de cachorro, notou que o cadarço estava quase completamente destruído.

Zé Ninguém observou aquele cadarço com atenção. Reconheceu ali uma visão distorcida do que virá no espelho. Um algo seco, cheio de buracos e velho. Doeu. Doeu como o diabo reconhecer-se num cadarço velho e comido. Olhou o relógio e percebeu que caso não fosse, perderia o ônibus. Colocou os sapatos, mas não teve tempo (ou jeito) de amarrar os cadarços.

Saiu à rua movimentada, adentrou a multidão de pernas, pastas e carrancas, como quem entra num rio de correnteza forte, curvando-se e prendendo a respiração, procurando sair dali o mais rápido que podia atrás de um pouco de oxigênio limpo. E, enquanto sentia a multidão batendo em seus ombros, seus joelhos, pisando no cadarço que ele não amarrou e o puxando pra trás enquanto tentava ir o mais rápido que podia, a imagem do cadarço duro e comido pelo cachorro ainda lhe torturava, fazia-se fixa em seus pensamentos, quase como se ele pudesse tocá-la entendendo a mão à frente.   

No ônibus cheio, um Zé Ninguém atordoado se encaixou ao lado de uma gorda com sacolas e um estudante com fones de ouvido. Procurou ignorar o aperto, o calor, o barulho como sempre fazia, mas naquele dia tudo parecia gritar mais que o normal.
Como se dentro dele algo gritasse com força, algo que quisesse se libertar. 

Quando sua parada estava próxima, ele comprimiu-se ainda mais tentando chegar à porta de saída do ônibus lotado. Só chegou até ela quando estava quase fechando e no aperto, na presa de sair logo, acabou que alguma perna da multidão segurou seu cadarço surrado e o sapato do pé direito ficou dentro do ônibus, enquanto ele saia cambaleando e a porta se fechava.

Quando notou a ausência, Zé Ninguém correu batendo na lateral do ônibus, gritando com sua voz rouca – que aparentava estar sempre entre um meio pigarro – que o motorista parasse. Bateu e correu até onde pôde, mas não foi ouvido por ninguém. O ônibus seguiu seu caminho. Zé Ninguém ainda o encarou até que ele desaparecesse numa curva, junto com os outros carros e ônibus. A multidão voltou a bater em seus ombros, seus joelhos, e agora também pisava em seu pé descalço.

Então, ali com um dos pés tocando o chão sujo da praça ao lado do prédio que trabalhou a vida inteira, com a multidão que não se importar com ele, com o suor descendo pela nuca e a imagem do cadarço todo comido pelo cachorro na mente, Zé Ninguém de repente quis ser alguém. Quis deixar o conformismo, quis sorrir pra vida e dizer “estou farto de te deixar fazer o que quer de mim, de me contentar com as migalhas que tu me ofereces”.

E embebedando-se pela primeira vez de coragem solida e visão de real vida, Zé retirou o outro sapato, rodou-o pelo cadarço roído e jogou-o numa lata de lixo ali próxima. O barulho fez uma parte da multidão voltou-se para ele. Sorrindo, ele curvou-se agradecendo a atenção de sua nova platéia e deu inicio ao novo ato da peça onde ele não era mais coadjuvante da própria vida, mas o diretor, roteirista e ator principal. Encheu os pulmões, ergueu a coluna, colocou o melhor sorriso que tinha e decidiu: a primeira coisa a se fazer, então, era comprar um sapato novo. 

19/05/2012

Onde o Céu confundiu-se com o Mar


Pra ouvir (não necessariamente lendo o conto): All the rowboats – Regina Spektor

Nunca duvidei da sorte que tenho na vida. Não, ela não é sobre garotos ou loterias, alias, é tão singela que nem sei devo chamar de sorte, talvez seja apenas de uma sagaz felicidade ocasional, uma coincidência louvável ou apenas acaso. Chame do que for, eu gosto de pensar que é uma espécie de sorte. 

Bem, o fato é que moro em uma das costas onde o mar costuma banhar-se e banhar-nos com sua majestade.  Então, como apenas esses felizes como eu, posso todos os dias descer alguma das ruas íngremes da cidade – a pé mesmo, já que moro a apenas três quarteirões de uma dessas decidas que levam ao mar – e deitar-me perto daquelas ondas, sentindo o vento e os cheiros e as sensações.

Era meio de semana, cedo da manhã, e eu estava ali deitada contra a areia aproveitando o tempo que reservava para isso todos os dias, embora me custasse alguns minutos a menos de sono. Mesmo por tal preço que poucos estão dispostos a pagar, sei que era invejável essa minha opção. 

Os pássaros acabaram de fazer uma revoada cortando as ondas num voo bem próximo. Sempre penso que vão mergulhar, mas prefiro acreditar que aquele seja o ritual deles de, pela manhã, lavar os pés e desejar que aquelas sejam águas de sorte. 

Quanto a mim, mesmo sentindo o vento frio que tanto gosto trazer alguns respingos d’agua, talvez agua ainda da chuva da noite passada, e adorar o mar como a um Deus, esqueci-o por completo e deitei pra observar o céu.

Daquele ponto do começo da manhã fria, o céu confundia-se com o mar que também refletia as nuvens branquinhas. Era a fusão de azul com azul mais intensa e bonita de todas. Além, claro, do fato de ser azul – minha cor preferida. 

E eu fiquei ali respirando aquela beleza, deitada contra a areia fofa e gelada que agora grudava no meu cabelo, no meu casaco, nos meus sonhos, lembro-me que por mais admirável e incrível que fosse o céu e suas criaturas, eu jamais seriam um deles, eu jamais poderia sair dela. Porque, veja bem, as pessoas podem voar com que aviões, mas eu queria ser um pássaro, ter asas de verdade, entende? Poder saber que o meu voar era obra unicamente do meu esforço. 

Em meio ao meu devaneio entre areia e nuvens, senti que alguns passos me diziam olá. Estavam cada vez mais perto e a julgar pela hora, só poderia se dirigir para mim que era o único ser humano que tem coragem de aparecer por ali àquela hora, além dos que dependem do mar para viver, claro. 

Olhando ainda deitada e vendo-o de cabeça pra baixo, percebi que se tratava de um rapaz só alguns anos mais velho que eu, talvez dois ou três, também vestido num casaco e com um daqueles rostos comuns, bem masculinos em seus traços, mas que conseguem ser bonitos mesmo assim. O cabelo dele não dizia olá a uma tesoura há bastante tempo, pensei, quando o vi completamente levado pelo vento, fazendo o penteado meio rockabilly dele ser destruído. Os olhos estavam fixos em mim, observando-o daquele jeito estranho e curioso, e ele coçava a barba como quem ainda não tinha decidido se faria ou não o que faria, embora já estivesse no meio do processo. Então, quando chegou bem perto ele se decidiu.

- Até que enfim te encontrei. – disse assim como quem conversa com uma amiga que estava procurando há muito tempo e finalmente a encontra em seu esconderijo. – Desculpe, nós nos conhecemos? – eu respondi meio vacilando, levantando-me envergonhada de limpar os grãos de areia que grudavam em todo o meu corpo. – Você não me conhece, mas eu lhe conheço bem. – ele disse e sem convite algum, exceto pela curiosidade que brilhava mais ainda nos meus olhos, sentou-se ao meu lado e sorriu. – Mesmo? De onde? – observei um pequeno rubor brotar pelas faces pálidas do rosto dele onde a barba ainda não cobria. – Dos meus sonhos.

09/05/2012

2 anos de blog!



Confesso que não acreditei a principio que podia dar certo. Era só uma vontade imensa de mostrar ao mundo algumas coisas, belezas e entendimentos que se passavam dentro de mim, algumas das estórias que invento desde que me reconheço como ser pensante.

Resolvi finalmente arriscar.
Investi esforço, vontade e especialmente carinho.
Orgulho-me hoje de dizer que estava errada: deu certo sim. E muito.

Esses dois anos passearam pela minha cabeça diversas vezes nesses últimos dias. Todos os momentos da minha vida nesses dois anos, de alguma forma, estão passeando por essas linhas. É o registro de tudo que amo, que aprendi e que, de alguma forma, ganhei de presente. Por mais que seja ficção, a algo de bem real nessas palavras corridas: há um ser humano – ou seriam mais? – que cresceu junto com elas, que está se formando e aprendendo sempre mais. E que gosta de compartilhar isso.

Então, nesse dia especial tudo que tenho a dizer é obrigada a vocês, meus leitores e parte essencial de tudo isso. Parece a principio que quem ganha é apenas um lado nessa troca, mas acreditem, ganhei presentes tão incríveis como as sensações que vocês me descrevem por aqui. E sempre reconhecerei que essa data e lugar não é minha, mas nossa. Esse blog é nosso. Construímos tudo isso aqui juntos. Então parabéns para todos nós por esse reduto lindo que temos aqui, onde podemos sonhar, ser, refletir, aprender e especialmente sentir.

Obrigada de coração por tudo.
Feliz aniversário de blog pra todos nós!



P.S. Andei falando de um presente que daria ao blog nas redes sociais, lembram? 
Notaram alguma diferença? 
AGORA NÓS SOMOS .COM *-*  
E como sempre, esse post  é dedicado à conversas, sintam-se a vontade de me perguntar qualquer coisa que queiram e procurarei responder-lhes. Novamente, obrigada e beijo especial a todos!

27/04/2012

Melhor deixá-la partir


Benediction – Thurston Moore

Apenas um par de os olhos castanhos refletia o brilho do sol que agora entreva pelo vidro da janela semiaberta, onde o vento frio do começo da manhã se espremia e invadia o quarto, acordando as cortinas, os lençóis e a casa inteira, menos ela que permanecia conectada ao descansar doce, respirando de leve e suspirando sempre que expulsava o ar.

Ele não fazia ideia de quanto tempo ficara ali apenas observando o jeito como ela dormia, só lembrava que a penumbra da noite ainda os encobria quando o fez, mas tinha mesmo era medo do que aquilo provocava: ali tão calada e indefesa, protegida pelas cortinas que do lado dela ainda faziam sombra, ele sentiu uma vontade estranha de protegê-la de tudo.

Teve de controlar um riso triste que pretendia cortar a sua garganta quando concluiu que aquele sentimento estranho e quase solidificado dentro ele era proteção.

Como ele iria protegê-la e salvá-la, sem ter conseguido salvar sequer a si mesmo?

Havia alguns dias que ele estava limpo. Não tinham cheirado, nem fumado, nem bebido nada. Quase conseguia respirar direito e era bom pelo menos uma vez acordar com gosto de hálito, e não de vomito, no fundo da garganta. O sol não lhe incomodava tanto, nem o vento, nem nada, exceto ela. Justo ela que deveria ser a única coisa confortável no meio de tudo.

Mas, ele sabia que aquilo era apenas passageiro. Sabia que quando o sol voltasse a dormir e o corpo quente dela não estivesse completamente colado ao dele como agora, ele voltaria a ser o mesmo drogado que vaga por ruas tão tortas e sujas quanto os seus pensamentos, suas intenções. Roubar em nome do seu grande e único amor, o vício, era sua única pretensão, sua grande luta.

A única coisa que ele tinha certeza naquele momento era de que é precisava deixa-la ir.

O problema é que ele havia se acostumado com o corpo quente dela, com os afagares dela, com os risos altos dela, que depois de uma semana ali naquele apartamento imundo, havia se espalhado de tal modo que era quase impossível juntá-la novamente. Mas, ele sabia que precisava fazer isso.

Pensou como os pais dela deveriam estar preocupados imaginando a menina inteligente e linda que criaram com tanto amor jogada num lugar qualquer, numa cama qualquer com um vagabundo, em meios às seringas, cervejas e cigarros. Eles tinham razão de amaldiçoa-lo todos os dias.

Então, a mão dela, que repousava sobre o peito açudo dele, mexeu-se. Os pés gelados dela procuravam os dele, igualmente gelados. Então, um olho de cada vez, ela acordou. Parecia um pouco atordoada ainda do sonho. Deslizou a perna lisa nos pelos grossos da perna dele. Ele retirou uma mecha que encobria um dos olhos dela e sorriu terno.

– Há quanto tempo você está me olhando...? – ela falou rouca, agora com um tanto de rubor nas bochechas. – Algumas horas. – ele riu observando-a corar mais ainda depois disso. Ela escondeu o rosto dentro do travesseiro e ele procurou armazenar todos os detalhes que pudesse sobre ela. Retirou o rosto dela do travesseiro, puxou-a novamente para o seu peito e fez com que todo o corpo dela colasse ao dele. Armazenou a sensação. Beijou-a na testa, sentiu o cheiro do cabelo dela. – Hoje a noite tenho uma surpresa pra você. – e logo ela abriu aquele sorriso ansioso que ele tanto gostava. – E o que é?! Vamos, me diga! – disse apressada. – Não, deixe pra noite mesmo. Agora fique aqui quietinha comigo e finja que o mundo lá fora não existe...

... Antes que ele me roube novamente a felicidade clandestina, meu anjo, sonhe que em um mundo perfeito nós dois estamos juntos e que você é meu único amor. E que isso não vai te destruir no final. Porque nós dois sabemos que vai. E, por mais que doa, esse é o melhor jeito que conheço de protege-la (de mim e dos meus erros), porque sabemos que esse amor já nasceu condenado. 

05/04/2012

Lira de domingo



Todo o album do Bensé

"Coloque um vestido no domingo", ele disse no seu costumeiro tom autoritário, no meio de uma daquelas ligações tarde da noite em que pretendemos apenas dizer "durma bem", mas acabamos conversando mil e uma das nossas teorias loucas.

Sempre assim: Dava-me uma ordem, respirava fundo e ria rouco de sono, mas sem qualquer vontade de desligar (embora o fizesse minutos depois), pra eu então rir boba de vontade de entender porque simplesmente não conseguia me desligar dele, embora odiasse receber ordens, odiasse o riso rouco dele, odiasse não conseguir abertura nenhuma para decifrá-lo.

Mas, me desprendia daquele desejo por saber o que aquilo significava: era um daquele dias em que ele aparece bem cedo na minha porta, apenas com barras de chocolate, cervejas, sua inseparável câmera e a roupa do corpo, me forçando (sem mover um dedo) a entrar no carro, só por saber que nunca consigo resistir ao seu melhor sorriso; Só por saber o quão eu amava estar sozinha com ele.

Ele me conhecia perfeitamente. Tinha-me (mesmo escorregadia) entre os seus dedos e fazia o que bem entendia, especialmente por saber quão afagava meu ego saber que ele, o esquisitão metido à anti-social e fotografo alternativo, me elegera sua musa. Justo eu, a menina quieta e sabe-tudo de biblioteca, que mal entendia nada de maquiagem e moda, nem do que ele sentia ou era, mas que era a única capaz de bater de frente com o autoritarismo dele, por vezes até derrubando-o, pra provar que era melhor do que ele pensava de mim.

Lançou em mim, então, todo o seu platonismo artístico e me levava pra os lugares mais peculiares nos arredores da cidade, longe dos prédios cinzas, das fumaças e das carrancas das pessoas. Sempre num campo verde, numa árvore centenária, uma fazenda, uma trilha. Fazia-me Marília e forçava-me a querê-lo meu Dirceu, e eu me fazia de bucólica pra aproveitar aquele carpe diem torto, mesmo sabendo que acabaria lendo seus poemas tristes vindos entre as grades da prisão que ele fazia ao redor de si, que nunca me deixava aproximar o quão eu queria.

Só que aquele domingo não soava quais os outros.

27/02/2012

Migalhas e cigarros

Não consigo pensar em nenhuma melodia que combine com estas palavras, 
desculpem

 Posto que selar a porta significava ter cumprido mais uma dessas suas missões sujas, ela ainda podia sentir os passos que o último cliente deixara entrecortando a parte de fora e a de dentro do pequeno apartamento. Uma janela refletia o cinza do prédio à frente do seu, transformando todo o local numa projeção do seu humor típico. As coisas ali dentro também seguiam o padrão do humor: tabaco e branco, junto com as paredes meio amareladas de tempo. A decoração e os móveis eram modestos, mas bem limpos.

Observou atenta ao relógio na parede posterior, encostando as costas nuas à madeira, julgou conveniente o tempo que tinha. Executaria um plano. Caminhou arrastada até a cozinha, os pés descalços em contato com o chão de madeira fria. Encontrou sobre a mesa os costumeiros (ou seria companheiros?) cigarros. Tirou habilidosamente um deles do maço, colocou na boca. Procurou os fósforos. Encontrou. Acendeu. Tragou.

Gostava de segurar a primeira tragada para que ela fosse bem fundo dentro de si e saísse quente como entrou. Soltou a fumaça dentro da geladeira enquanto pegava leite, ovos e manteiga, segurando o cigarro com a boca, novamente. Fechou a porta com o quadril. Do armário que ficava ao lado, tirou uma caneca, farinha e açúcar. Achou um achocolatado e um pacote de M&Ms aberto, levou também.

Colocou tudo sobre a mesa, ao lado do maço dos cigarros. Com uma habilidade que era mais cuidado que talento, quebrou o pequeno ovo dentro da caneca, bateu com o garfo. Lembrou dos gemidos, do ranger da cama, dos ruídos que não eram dela, mas estavam sobre ela. Pra aliviar os pensamentos que ela costumava sufocar, procurou murmurava alguma coisa suave que ouvira uma vez, não lembrava quando. Acrescentou o leite, a manteiga, o achocolatado. Quando foi a vez do açúcar, este caiu um pouco pela mesa e ela recolheu com o dedo, lembrando quem a havia lhe apresentando aquela musica.

Era aquele cliente mais culto e gentil viera uma vez pra nunca mais voltar. Ele dizia que Carlos Gardel era sexy. Ela concordou enquanto ria e mensurava consigo o quão incomum era rir com um cliente, e ele lhe segurava pela cintura tentando ensinar como se dançava o tango que ele tanto amava e que ela não levava o menor jeito.

Parou de rir quando lembrou que, como qualquer outro, ele estava lá única e exclusivamente para usá-la, pagar e ir embora, como fez. Qual um doce desejado que se compra, paga, abre, come e joga a embalagem fora e depois não resta nada.

Só que, como eles costumavam não se atentar, depois de comer aquele doce amargo de suor e prazer, restava sim algo. Os restos de uma mulher de quase trinta anos que estava a tanto tempo naquela vida que já nem recordava das primeiras lembranças. Devia ter procurado esquecer, como fazia agora com todas as outras. Os restos de um rosto que não mais sorria, que perdera o brilho, a vontade, o desejo. Agora os restos eram migalhas que outros porcos imundos, como todos eles o eram, vinham, pagavam e comiam.

Ela acreditava fielmente (era a coisa mais próxima de uma religião que conseguiu juntar em si) que um dia não restariam mais migalhas de si para serem vendidas e esperava paciente e entediada pelo definhar de si mesma, sorrindo triste lembrando de ouvir em algum lugar que o herói da história não precisa ser salvo.

Misturou os outros ingredientes, programou o microondas para três minutos. Acendeu outro cigarro. Sentou-se com uma das pernas sobre a cadeira tragando outro cigarro por inteiro. Ao final do tempo, tirou o pequeno e torto bolo do fogo, acendeu outro cigarro, decorou com achocolatado e os M&Ms que havia achado e usou o próprio cigarro como velinhas sobre o bolo.

Parabéns pra mim, pensou, enquanto e na verdade só conseguia imaginar que agora faltava menos um para o fim. Soprou a fumaça cinza como todo o resto sobre o bolo enquanto a campainha tocava. Levantou-se, esticou as pernas e foi atender a porta, coletando pelo chão o que pensou ser algum resto de dignidade, mas eram apenas bitucas de cigarro ainda acessa e fumaçando.

01/02/2012

Quando o passado faz uma visita (parte II)


Hero - Regina Specktor

Uma lágrima negra de lápis de olho ainda correu a face pálida, manchando o caminho com sua escuridão, embora Lissy já houvesse parado de chorar. Os olhos dourados ainda mal acostumados à luz brilhavam semicerrados enquanto a adrenalina dissolvia-se em incerteza enquanto os olhos dele cravavam nela o seu brilho verde-tenebroso.

Era estranho, pra dizer o mínimo.
Era realmente estranho e estúpido.

Então a explosão.

Lisbeth reuniu as forças que tinha e empurrou com força o peitoral largo de Giuseppe. Ele cambaleou alguns passos pra trás, meio zonzo. Ela montou a melhor face de desprezo que conseguiu em meio aos olhos ainda leitosos do choro. – Seu porco imundo! Que diabos pensa que está fazendo? - gritou em meio à rua deserta que ecoou fracamente sua fúria.

Giuseppe começou a rir um riso grosso, incerto, forte, zombadeiro e quase satisfeito.  A fúria aumentou e ela não fez qualquer questão de controlá-la. Partiu para ele com suas unhas meio roídas e tentou de toda forma arranhar e machucar tudo que pudesse do rosto dele. Reuniu nos dedos e unhas toda a raiva e desprezo que alimentou durante todos aqueles anos. Ele continuava rindo, embora agora também estivesse ciente do ataque e tentasse segurar os pulsos da menina e o próprio riso.

Só então percebeu que ela havia voltado a chorar.

Não um choro comum ou assustado como antes. Era um choro que ardia deixando a garganta, o nariz e a região próxima completamente naquele tom rubro que mesmo com a luz difusa, se mostrava nítido. Um daqueles choros que se acumula com anos de força. Aos poucos, ela se encolheu fazendo de si mesma uma bola que desceu até o asfalto, até os joelhos ralarem ali.

Pepi ficou estático uns segundos observando Lissy ali, completamente indefesa jogada ao asfalto próximo aos seus pés e ainda podia sentir os pulsos dela escorrendo pela sua mão. Agindo como tinha feito da outra vez, ele abaixou-se sem pensar e a abraçou.

Naquele momento confuso, Lissy notou que estava cansada de ser forte. De lutar uma batalha eterna contra todos ao redor. Uma batalha que não chegava ao fim nem após o armistício, porque, na verdade, ela lutava contra si mesma. Contra a vontade de chorar, de ser fraca, a necessidade de algo ou alguém pra lhe proteger, que não ela mesma.

A solidão de não ter ninguém ao lado além de si mesmo lhe atingiu como um cruzado de direita e ela nada pudessem fazer senão esperar o fim da contagem, o anunciou do seu último nocaute da vida, lhe mostrando que não era tão forte assim.

Sim, esse era um bom jeito de acabar tudo aquilo.
Rendendo-se aos inimigos - ou seria o único inimigo, a vida em si? -, como à vida costuma fazer.

Riu-se tristonha balançando mais um pouco sobre o balanço no quintal de casa, de onde não saiu senão em pensamento, enquanto tentava acender o cigarro que era a única iluminação ali e ouviu Woddy Allen citar em sua cabeça que a vida teria sido melhor se Deus tivesse um orçamento e roteiristas melhores. Depois, recordou que a vida costuma ser mais interessante quando o script ela mesma fez, dentro dos seus pensamentos, como agora.

E sentou-se encolhida um pouco mais, constatando que na maioria das vezes as pessoas não voltam pra concertar os erros do passado. Elas chamam isso de seguir em frente. Talvez, crescer seja ter a oportunidade que não errar tanto quanto antes. Ou talvez, crescer seja simplesmente aprender a ignorar a importância que si dá aos erros dos outros.

Acendeu finalmente o cigarro, apagou o isqueiro, tragou longamente e voltou a escuridão confortável de dentro das pálpebras que balançavam junto com a copa das árvores do vento do outono que levava tudo, exceto as dores que não saram depois que se cresce. 

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